Cresci a sonhar um dia encontrar para mim alguém como tu.
Ainda criança escondia-me no vão das escadas a ver-te beijar a minha prima, que dissimuladamente dizia ir levar o lixo à rua. Eu, tantas vezes de férias lá em casa, aguçava os lápis até às pontas, fazia rascunhos de nada, descascava, rasgava, partia... montava às escondidas uma verdadeira indústria do lixo, a pretexto de te ver beijá-la mais uma vez e de poder olhar o teu cabelo que eu sempre achei tão giro.
Eu cresci e tu, que já fazias parte da família, tornaste-te um amigo. Gosto de quando falamos sentados à mesa de um jantar terminado há horas. Gosto de invejar a tua colecção de música. Gosto de acender a lembrança das esculturas de areia que fizemos naquele verão. Das cócegas no sofá...
Para mim sempre protagonizaste o equilíbrio perfeito entre a inteligência e a sensibilidade. Tens no olhar a serenidade apaziguadora de quem sempre respeitou a vida, amando-a. A sensatez nas palavras. A calma no jeito. A lucidez na forma. Apesar da audácia. Do destemor. Espírito guerreiro, em vestes de paz... Como nos surpreendeste daquela vez que decidiste fazer o que o que sempre desejaste, sem pensares que podia ser tarde, sem pensares nas perdas, sem pensares em como iria ser duro. Como me orgulhei! Acho que nunca to disse...
Hoje a tua luta é a favor da vida. Atiras-te com bravura para a linha da frente, de braços abertos, como um escudo humano, à espera que a vida te acerte... Tu e o teu corpo declaram guerra! Eu orgulho-me. Emociono-me com a tua coragem, mais uma vez. E sinto medo... muito medo. Como queria juntar-me a ti nesta investida pela vida... Mas embato neste não saber que fazer, tão desconhecido para mim... Na minha pequenez humana. Rezo. Rezo. Rezo.
Não te deixarei morrer! Imortalizo-te dentro de mim, na gaveta sacra e hermética deste meu - hoje enfurecido - coração! Mesmo assim, por favor, não vás... fica... fica...!