No dia 25 de Abril de 1974, eu não ouvi, vinte minutos depois da meia-noite, a «Grândola» do Zeca na Rádio Renascença, o som das botas a marchar, aqueles versos libertadores («o povo é quem mais ordena/dentro de ti ó cidade»), o sinal de que algo se iria romper na ordem cinzenta de um país sufocado, a certeza de que o fruto podre de um poder podre haveria finalmente de cair por terra. (…) No dia 25 de Abril de 1974, eu não vi os soldados da Escola Prática de Cavalaria de Santarém a ocuparem o Terreiro do Paço, nem a marcha das chaimites através das ruas da cidade, nem o cerco ao Quartel do Carmo, nem Salgueiro Maia, de megafone em punho, apelando à rendição de Marcello Caetano, nem o Presidente do Conselho a exigir a presença de um oficial de patente «não inferior a coronel», nem a chegada de Spínola (altivo como sempre, de monóculo e pingalim), nem a espera tensa da multidão que ali se havia juntado, nem o silêncio que precede os grandes momentos da História (…) No dia 25 de Abril de 1974, eu não andei pelas avenidas de Lisboa, a saborear letra a letra, sílaba a sílaba, a palavra Liberdade. Não ofereci cigarros aos soldados, não pedi um cravo para pôr na lapela, não fotografei rostos eufóricos, não fiquei rouco de cantar palavras de ordem, não subi às estátuas para contemplar os rios de gente, não guardei na memória, minuciosamente, cada segundo daquele que já era o «dia inicial, inteiro e limpo», cantado mais tarde pela Sophia (…) (José Mário Silva, in Jornal de Letras, Abril/04).
No dia 25 de Abril de 1974, eu não escutei, nem vi, nem fiz nada disto por uma razão muito simples: ainda não andava por cá…! Como notou Umberto Eco, n’ O Pêndulo de Foucault, "perdi as grandes ocasiões porque chegava demasiado cedo, ou demasiado tarde, mas a culpa foi da minha data de nascimento". Acaso virá daí a sensação que sempre tive de não ter nascido na data exacta… Quiçá se tivesse nascido 1 ano e oito meses antes, não ao som do Noite Feliz, mas da Grândola ou dos gritos do povo em elevação, trocando a doutrinação da paz pela revolução feita da mesma, achasse agora ter a idade certa! Não teria ainda memória, mas podia presumir que estive lá, na mais bela das revoluções!
A minha memória do 25 de Abril fui roubando-a à memória dos que lá estiveram, erigida, então, pelas palavras e imagens dos outros, pelos seus olhos a brilhar de nostalgia. "Eu não fiz, eu não vi, eu não escutei. E tenho pena. É como se me tivessem roubado aquele dia de puro assombro." Ainda assim, emociona-me ouvir os relatos dos que lá estiveram, e sobre aqueles que, com coragem, sacrifício e esperança, construíram durante anos o que viria a ser o 25 de Abril de 1974. Aqueles que foram Abril antes de Abril!